Felipe Holloway: O persistente escritor radicado em Mato Grosso

Da Redação (com informações da assessoria)

 

Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura de 2019 após várias tentativas, dedica-se a ler e escrever desde os 17 anos

 

Nascido em Canindé, interior do Ceará, e radicado em Cuiabá, capital de Mato Grosso, o escritor Felipe Holloway, de 30 anos, é o primeiro autor de raízes mato-grossenses a ganhar o Prêmio Sesc de Literatura. Em um ano marcado pelo recorde de inscrições no concurso, com quase 2 mil trabalhos inscritos, Felipe conquistou os críticos ao abordar as vivências confrontantes de um professor universitário e um famoso escritor, em sua obra “O Legado de nossa Miséria”.

 

“Eu comecei a escrever com 17 anos, na época eu estava muito na onda de Harry Potter e tive a ideia de talvez criar uma série de fantasia. Mas no início era uma coisa bastante despretensiosa, a ideia de que fosse possível me profissionalizar nessa área veio bem depois”, contou o autor.

 

A paixão pela literatura esbarrava então no receio de viver uma realidade cheia de dificuldades, como afirma o jovem, diante do mercado editorial brasileiro. Apenas em 2013, quando iniciou o curso de Letras que a Literatura enquanto profissão passou a se materializar na vida do autor.

 

Hoje, formado e mestrando na área de Estudos Literários pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Felipe relembra ainda que seu início em concursos literários se deu em rede, de forma online, por meio de sites e grupos em redes sociais.

 

Foi também pela internet, que Holloway teve contato pela primeira vez com o Prêmio Sesc de Literatura, em meados de 2014. Mesmo não tendo êxito nas primeiras edições que participou, o escritor seguiu reeditando a obra até chegar à versão vencedora.

 

Ainda sentindo os efeitos da vitória surpreendente, Felipe Holloway vê o resultado do Prêmio como a consequência de um amadurecimento literário de aproximadamente cinco anos, além de ser agora a possibilidade de seguir o caminho que começou aos 17 anos, “A escrita vai poder ser pra mim a partir de agora não um hobby, mas de fato uma profissão”, concluiu.

 

Acompanhe agora a entrevista com o escritor Felipe Holloway:

 

No início da sua vida de escritor, você recebia algum tipo de incentivo ou o caminho pela literatura ainda era muito incerto?

 

O incentivo era mais de uma motivação pessoal mesmo. Na minha casa, o hábito da leitura não era muito consolidado, só que meus pais sempre me incentivaram. É uma coisa pela qual eu sou grato até hoje. Mas eu fui criando uma rede de contatos com pessoas que lidavam com a escrita e que também gostariam de se profissionalizar. Eu participava de comunidades no

Orkut como ‘Estou Escrevendo Um Livro’ que eu fiz vários amigos e tenho até hoje. Foi um período de formação muito importante para mim e me lembro dessa fase com muito carinho.”

 

Essa experiência surgiu antes de você entrar no curso de Letras?

 

Foi concomitante com o início do meu curso de Letras. Eu entrei no curso de Letras em 2013, e o conto que eu escrevi e que deu origem ao “O Legado de Nossa Miséria”, que é a obra que ganhou o Prêmio Sesc de Literatura, eu escrevi em 2013 também. Então eu considero uma fase de transição da minha vida. Eu decidi que era Letras o que eu tinha que fazer, porque era a forma de eu ficar mais próximo do que eu gostava, que era ler e escrever, e me profissionalizar nisso. Então passei por essa fase de formação mais difícil quando eu estava entrando no curso e ao mesmo tempo aprendendo sobre teoria literária. Antes eu lidava muito da perspectiva do leitor e depois do curso de letras eu comecei a ver mais perspectivas teóricas, e isso inclusive me ajudou a avaliar criticamente obras que eu mesmo escrevi.”

 

Então depois do curso de Letras você começou a pensar na possibilidade de levar a literatura como a sua profissão?

 

Sim, contrariando o que eu achava, porque o medo era que o curso de Letras transformasse o meu hobby, de ler e escrever, em uma coisa chata. Aquela questão de você gostar muito de um produto mas não querer saber muito sobre como ele é produzido para não ficar enojado. E foi justamente o contrário, eu achei interessante lidar com a perspectiva da literatura a partir da produção de alguns teóricos. Muitas vezes existe a possibilidade de você lançar um olhar mais crítico da literatura mas não da literatura como representação da realidade. No curso eu descobri que era possível produzir literatura que não fosse apenas uma historinha que representasse a realidade.

 

Como você conheceu o Prêmio Sesc de Literatura?

 

Eu conheci o Prêmio Sesc em 2014. Um dos sites que eu acessava tinha uma página no Facebook, onde os autores trocam ideias. Lá eu vi alguém comentando sobre o Prêmio, que era voltado para autores iniciantes e eu decidi me inscrever. Confesso que quando vi o histórico do prêmio e a quantidade de pessoas que participam bateu um medo, pensei ‘cara não vai rolar, melhor eu esperar um pouco mais’, mas como autor iniciante é um pouco afobado pensamos também em pelo menos tentar. Minha primeira participação foi em 2015, com uma versão muito preliminar dessa que ganhou agora, o título inclusive era diferente, era “Spoiler”, e na minha primeira participação eu consegui chegar entre os pré-selecionados. E isso foi um incentivo muito grande. Nos três anos seguintes enviei versões alteradas da obra. Ao longo do tempo, em que eu fui me envolvendo com outras atividades, dando aula e fazendo revisões, eu comecei a pensar o Prêmio com mais calma, com uma visão mais amadurecida e com menos ansiedade. Parece muito aquele clichê de que quando você deixa de perseguir a coisa com muita afobação a coisa vem naturalmente. Inclusive quando eu

recebi a ligação eu estava dando aula e eu olhei o número pensando ser algum telemarketing, porque eu nunca recebo ligação do Rio de Janeiro, e só pude atender depois. Demorei para acreditar, até agora ainda não assimilei direito que ganhei.

 

Essas tentativas serviram como uma forma de amadurecimento tanto na sua vida pessoal como da sua obra?

 

Com certeza, inclusive eu tava vendo alguns comentários de pessoas que tentam todos os anos e não ganham, e eu tentei responder algumas dizendo que participei por cinco anos seguidos e fui melhorando a obra todas as vezes que não ganhei. Então a questão é persistir, porque literatura é isso. O Jorge Luis Borges, que é um autor que eu gosto bastante, costumava a dizer que ‘você publica uma obra para se livrar dela’ não porque você acha que ela tá perfeita. Eu acho que a maioria dos escritores nunca vai julgar que a obra que foi publicada está de fato perfeita. E é isso que faz com que uma obra cresça. Eu sou da teoria que quanto mais tempo uma obra passa por essa fase de ‘pré-fabricação’ melhor é o resultado.”

 

O que você pode adiantar para o leitor sobre a obra vencedora do Prêmio Sesc de Literatura?

 

‘O Legado de Nossa Miséria’ é uma obra metalinguística que reflete bastante sobre o fazer literário e também sobre as pessoas que estão envolvidas nesse processo. O livro vai falar sobre um crítico e professor universitário – os personagens principais não tem nome – que vai ser convidado para um simpósio de jornalismo literário, realizado em um cidade fictícia do interior de Minas Gerais. O convite surge depois da boa repercussão de um artigo científico feito por ele para uma revista sobre biografias não autorizadas. Nesse evento, o professor encontra um escritor famoso nacionalmente, que ele admirava bastante. O ponto crucial da obra gira em torno do diálogo que eles estabelecem na transição do penúltimo pro último dia do evento, no qual eles vão rememorar suas carreiras. Com isso o escritor vai falar de como a notoriedade chegou para ele, em um processo que está oculto para os leitores, e acaba sendo um diálogo bastante confessional.

 

O que você diria para os escritores iniciantes considerando o cenário da literatura brasileira?

 

Aqui no Brasil a gente não tem muito essa visão da literatura como elementar, muitos encaram o acesso a literatura como uma coisa secundária. O primeiro problema é a formação de um público leitor. Infelizmente o nosso público é relativamente pequeno, o que acaba tornando mais difícil o trabalho do escritor iniciante. O conselho que eu gostaria de passar para esses autores iniciantes é ter persistência, saber que a afobação é inimiga do trabalho literário. É clichê falar isso mas, persista para alcançar o que você quer e seja humilde para reconhecer que você ainda tem muito o que aprender nessa área literária.”

 

Quais são os próximos passos da sua carreira como escritor? Como estão os preparativos para receber o prêmio?

 

Ainda estou assimilando a notícia de que realmente ganhei o Prêmio Sesc de Literatura, ainda mais porque sonho com isso a muito tempo. Mas a partir de agora as expectativas são as melhores possíveis, o prêmio tem essa questão de abrir as portas de uma forma diferenciada para os novos autores, já que dentro da premiação existe um apoio para a projeção desse autor, que é um coisa maravilhosa. O prestígio do prêmio Sesc nacionalmente também é uma coisa incontestável, então a perspectiva é retomar projetos que tive que interromper e me dedicar. Além de participar e conhecer o cenário literário de outros lugares, quando começar a turnê de divulgação. Então a escrita vai poder ser pra mim a partir de agora não um hobby, mas de fato uma profissão.

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